IMPERCEPTÍVEL
Friday, August 18, 2006
 
29/12/2005

O livro que quero escrever é uma experiência de quem acha, que pode ser um escritor um dia. Meu Deus, que objeto não identificado é este que estou escrevendo. Parece que tem vida própria. Chega de falar de mim. Quero falar dela...

PARTE I

Observo a moça imperceptível de longe. Antes, a via sair de casa para trabalhar, ir à faculdade e quando corria para manter a forma. Agora, vejo-a com a família. Sempre brinca com os filhos e namora o marido. Montei na parede do quarto, um painel com fotos suas em preto e branco, embaçadas de propósito. É assim que a vejo realmente. Precisa abstrair, para olhar a sua beleza.Confesso que até inventei uma fantasia erótica com ela, que nunca se concretizou... Estava andando nas ruas do Centro da Cidade do Rio de Janeiro. Tinha muitas preocupações e compromissos de trabalho. A minha rotina foi quebrada ao vê-la, de repente, na rua. Não falamos, somente nos olhamos. Toquei na sua mão e ela sorriu para mim. Nesse momento, a cidade era exclusivamente nossa. Estávamos em silêncio profundo, mas conseguimos nos comunicar, pelo toque das mãos. Levei-a ao um motel e transamos a maior parte do dia. Há se isso fosse verdade... Escrevi-lhe, uma vez, um bilhete. Tive uma surpresa logo depois: “ Sei que é um voyeur. Sabe tudo sobre mim, o que ninguém, nem meu marido e nem os meus pais sabem. Tem esse poder, sei disso. Gosto de ser observada por você, fico excitada, apesar de amar meu marido profundamente. Observa-me desde menina. Mas não ouse meter-se no meu caminho. Acabo com você, num piscar de olhos. Você conhece a minha intimidade, sem me tocar. Sabe de coisas, que nem meu marido, conhece. Isso é tão interessante e estimulante. Não é só você, que sabe tudo sobre mim. Conheço toda sua vida. Sou uma voyeur, também.”.
Nunca interferi em sua vida, só a espio. Quero conhecê-la; saber o que pensa, seus defeitos e suas virtudes. Ela é humana, isso me fascina. Imoral, sensual, racional, boa filha, mãe carinhosa, apaixonada pelo marido, excelente profissional e essencialmente ambiciosa.

As jóias que ganhava dos amantes, as vendia e investia nos estudos. Acreditava que se não estava prejudicando ninguém, poderia fazer o que quiser. A vida era dela afinal de contas.
Sentia medo da loucura. “Ela pode destruir minhas máscaras, deixando-me nua”. É o seu temor primeiro. Lembrava-se sempre de uma cena triste: os moleques da rua, onde mora. Implicavam com uma mendiga louca, chamando-a de fedorenta e de vagabunda. Os adultos riam e alguns permitiam aquela situação degradante.
No armário escondeu chocolates e caixas de bombons. Adorava comê-los, não repartia com ninguém. Uma vez esqueceu, por muito tempo, que tinha uma barra de chocolate no armário. Ela apodreceu. “Tanta gente passando fome e eu deixei apodrecer uma barra de chocolate no armário”.
Quando saiu com um namorado, estava sem calcinha. Ele nunca poderia imaginar, que aquela moça vestida discretamente, pudesse estar sem a roupa íntima. Ao ver, ficou surpreso. Nunca mais se esqueceu da noite inesquecível, que teve com aquela moça aparentemente sem sal.
Sonha sempre o mesmo pesadelo: “Um corpo de mulher estirado, num terreno baldio. De repente, aparecem vários urubus com rostos de homens barbados e com dentes enormes e afiados. Começam a devorá-lo, principalmente, as nádegas da mulher. Engraçado, desde que me entendo por gente, sempre sonhei com isso.”
Recordava-se da irmã mais velha, que morreu num acidente de carro. O velório foi muito triste. A mãe chorava muito, o pai a consolava e chorava também. Ela estava apática, seu rosto estava seco. Os vizinhos fuxicavam que ela não gostava da irmã. Todos estavam errados, ela a amava muito.
 
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